Com a ausência bombástica de Carlos Alcaraz por lesão no pulso, o saibro de Paris ganha contornos imprevisíveis — e Jannik Sinner chega como o homem a ser batido.
Existe algo no saibro de Roland Garros que nenhuma outra superfície do tênis consegue replicar. Não é só a terra batida, o pó vermelho que gruda na roupa e transforma cada ponto num teste de resistência física e mental. É a história. É saber que ali, naquele mesmo chão, Borg construiu sua lenda, Nadal reinou por duas décadas e Djokovic provou que não existe limite para a reinvenção. Roland Garros não perdoa atalhos. Quem vence em Paris precisa ser completo — ou ter a coragem de fingir que é.
A edição de 2026, que acontece entre 18 de maio e 7 de junho, chega carregada de narrativas. A maior delas: Carlos Alcaraz, bicampeão consecutivo e dono de uma das finais mais épicas da história do torneio em 2025, está fora. Uma lesão no pulso direito, que inclui inflamação nos tendões e dano na cartilagem, tirou o espanhol de toda a temporada de saibro. Sem Alcaraz, o tabuleiro muda. E muda muito.
Os favoritos ao título masculino
1. Jannik Sinner — o rolo compressor
Não existe outro jeito de descrever o momento de Sinner: o italiano está jogando o melhor tênis da sua vida. São 23 vitórias consecutivas, cinco títulos Masters 1000 seguidos — feito inédito na história do circuito — e uma confiança que beira o absurdo. Em Madrid, dias atrás, atropelou Zverev por 6-1, 6-2 numa final que durou 58 minutos. Não enfrentou sequer um break point. Roland Garros é o único Grand Slam que falta na coleção de Sinner. Na final de 2025, ele teve três match points contra Alcaraz e deixou escapar num épico de cinco horas e 29 minutos. Essa ferida não cicatrizou — e a fome de revanche, agora sem o rival no caminho, faz dele o favorito disparado. Com um recorde de 30-2 na temporada, o número 1 do mundo chega a Paris como poucas vezes um jogador chegou a um Slam: praticamente imbatível.
2. Alexander Zverev — a eterna promessa que ainda pode cumprir
Zverev já foi semifinalista e finalista em Roland Garros. Tem 28 anos, um saque devastador e jogo de fundo de quadra que funciona muito bem no saibro. O problema? Sempre esbarra em alguém. Nos últimos cinco Masters 1000, perdeu todas as semifinais para Sinner — incluindo a final de Madrid. Mas a verdade é que Zverev é o segundo melhor jogador do circuito neste momento, e numa chave sem Alcaraz, o caminho até a final fica mais limpo. Se conseguir evitar Sinner até a decisão e chegar fresco, tem qualidade para fazer estrago. A questão, como sempre com Zverev, é mental: ele consegue manter o nível durante duas semanas inteiras quando a pressão aperta?
3. Novak Djokovic — nunca subestime o sérvio
Aos 38 anos, Djokovic não é mais o favorito automático de sempre. Mas quem assistiu à semifinal do Australian Open 2026, quando ele eliminou Sinner, sabe: o sérvio ainda tem noites em que parece imortal. Com três títulos em Roland Garros e uma experiência incomparável, Djokovic conhece cada centímetro daquele complexo. Sua temporada foi irregular, mas Paris sempre tira o melhor dele. Se entrar saudável e motivado — e contra Djokovic, motivação nunca é problema — ele pode surpreender qualquer um numa sequência de cinco sets.
As favoritas ao título feminino
1. Iga Swiatek — a rainha do saibro quer o trono de volta
Quatro títulos em Roland Garros nas últimas seis edições. Um recorde absurdo de 37 vitórias e apenas 3 derrotas em Paris na carreira. Swiatek é, simplesmente, a melhor jogadora de saibro da sua geração. A temporada de 2025 foi mais difícil — ela perdeu a semifinal para Sabalenka e assistiu Coco Gauff levantar o troféu. Mas a polonesa, agora com 24 anos, venceu Wimbledon no ano passado e provou que sabe se reinventar. Roland Garros sempre trouxe o melhor do seu tênis: o topspin pesado, a movimentação incansável, a frieza nos momentos decisivos. Se houver uma superfície onde Swiatek recupera a supremacia, é esta.
2. Coco Gauff — a campeã quer repetir a dose
Gauff conquistou seu primeiro título em Roland Garros em 2025, derrotando Sabalenka na final com um tênis maduro e agressivo que impressionou. Aos 22 anos, a americana combina potência nos golpes de fundo com uma cobertura de quadra excepcional. Defender o título é sempre diferente — a pressão muda de lado —, mas Gauff mostrou no último ano que sabe lidar com expectativa. Chega a Paris como número 3 do mundo e com a confiança de quem já provou que pode vencer no saibro mais difícil do planeta.
3. Aryna Sabalenka — a número 1 que quer Paris no currículo
Sabalenka é a atual número 1 do mundo e acaba de completar o Sunshine Double (Indian Wells e Miami) em 2026, reafirmando seu domínio em quadras rápidas. Mas Roland Garros continua sendo o espinho. Finalista em 2025, ela perdeu para Gauff na decisão e saiu arrasada. O saibro exige paciência e construção de ponto — qualidades que Sabalenka nem sempre demonstra. Porém, sua melhora no saibro nos últimos anos é inegável, com três títulos em Madrid como prova. Se ela controlar a ansiedade e jogar com inteligência tática, tem poder de fogo para vencer qualquer uma.
Os azarões que podem surpreender
Arthur Fils é o nome que mais cresce no circuito masculino. O francês de 21 anos voltou de uma lesão nas costas que o tirou oito meses do circuito e está invicto no saibro em 2026 — foram nove vitórias seguidas antes de cair para Sinner na semifinal de Madrid. Conquistou o título de Barcelona, subiu para o top 20 e chega a Roland Garros com a torcida francesa inteira nas costas. Fils tem um jogo explosivo e adaptável, trabalha com Goran Ivanisevic e está claramente num momento de ruptura na carreira. Em Paris, jogando em casa, pode ser o azarão mais perigoso do torneio.
No feminino, Mirra Andreeva é a aposta mais empolgante. Aos 18 anos, a russa já fez semifinal de Roland Garros em 2024 e quartas em 2025, ostentando uma taxa de 75% de vitórias no saibro. É talentosa, imprevisível e joga sem medo — a combinação perfeita para causar estragos em Paris. Ainda precisa provar consistência ao longo de duas semanas, mas o potencial para uma campanha histórica está ali.
O que esperar da edição 2026
Este Roland Garros será definido por uma palavra: oportunidade. A ausência de Alcaraz abre um vácuo enorme na chave masculina e transforma o torneio numa corrida mais aberta do que qualquer edição recente. Sinner é o grande favorito, mas sem a garantia de encontrar Alcaraz pelo caminho, a pressão de ser “o cara” recai inteiramente sobre ele. E pressão em Roland Garros funciona diferente — o saibro desacelera o jogo, estende os pontos e dá tempo para o nervosismo se instalar.
No feminino, o triângulo Swiatek-Gauff-Sabalenka promete confrontos de altíssimo nível. Mas fique de olho nas jovens: Andreeva, a italiana Jasmine Paolini e a chinesa Zheng Qinwen podem transformar qualquer quartas de final num evento imperdível.
E há a questão dos cinco sets, que só os Slams oferecem. É ali que o saibro se torna cruel. É ali que jogadores caem de exaustão, que azarões ganham coragem e que lendas são escritas. Roland Garros é o torneio que mais recompensa quem sabe sofrer — e em 2026, com tantas narrativas em aberto, o sofrimento promete ser espetacular.
O veredicto do 3T
Se eu tivesse que apostar? Sinner leva o masculino. O nível dele agora é assustador, e a motivação de completar o Career Grand Slam é combustível de sobra. Mas o meu coração torce por uma final Sinner x Fils — seria a passagem de bastão perfeita para uma nova era. No feminino, Swiatek recupera o trono. Paris é a casa dela, e jogadoras desse calibre não ficam duas edições sem o título. Mas se Gauff chegar à final novamente, preparem-se: vai ser guerra.
Uma coisa é certa: Roland Garros 2026 tem tudo para ser inesquecível. Liguem a TV, abram o streaming, façam o que for preciso. Não percam.
— Redação 3T (Tennis Tennis Tennis)